Quanto vale uma Startup?

As startups têm sido notícia frequente de uns tempos para cá, especialmente ao atingir a categoria de “unicórnios”, nome dado a essas empresas quando atingem uma avaliação de mercado superior a 1 bilhão de dólares.

Atingir tal valor é realmente impressionante e nos faz perguntar: “Por que não tive essa ideia antes?” O fato é que não basta uma ideia e, ao analisar a trajetória de startups de sucesso, deparamo-nos com inúmeras dificuldades, dúvidas, desconfiança e fracassos ocasionais. 

Antes de entrarmos no tópico desta postagem, convém definir o que é uma startup:

“uma startup é uma instituição humana projetada para criar novos produtos e serviços sob condições de extrema incerteza”

Essa é a definição de Eric Ries, autor do livro A Startup Enxuta e algumas expressões merecem ser destacadas:

  • Instituição humana: e, como tal, o aspecto emocional tem grande participação em todos os processos;
  • Novos produtos: a inovação é uma peça fundamental nesse tipo de empreendimento;
  • Extrema incerteza: esse é o ponto crítico que define uma startup, especialmente em seus estágios iniciais.

Precificar uma empresa, atividade conhecida por valuation, faz parte das atribuições do dia a dia de muitos profissionais, principalmente aqueles envolvidos em atividades relacionadas à investimentos e fusões e aquisições. Esses profissionais utilizam diversas ferramentas contábeis para atribuir um preço a uma empresa como o fluxo de caixa descontado e múltiplos de resultados (receitas, Ebitda etc.). O que essas ferramentas buscam é trazer a um valor presente projeções de resultados futuros e, para isso, os analistas responsáveis utilizam dados históricos e análises conjunturais para projetar cenários possíveis nos anos que virão.

A precificação de uma startup não conta com esse histórico e, sem isso, fazer projeções contábeis utilizando os métodos acima descritos não se mostra muito útil.

Quando pensamos em quanto vale uma startup, alguns pressupostos devem ser estabelecidos:

  • Em seus estágios iniciais, quando o grande patrimônio de uma startup são algumas ideias e um fantástico entusiasmo, seu valor é muito baixo;
  • Conforme o negócio avança e algumas etapas (ou metas) são atingidas, o valor da empresa aumenta;
  • Quando os fundadores de uma startup captam recursos, eles estão trocando parte de sua propriedade (ações) por dinheiro e essa porcentagem de sua propriedade é transferida aos investidores;
  • Os fundadores da startup tendem a sobrevalorizar sua empresa ao passo que investidores buscam baixar o valor estabelecido.

 Dessa forma, segundo Stephen R. Poland, chegamos à primeira regra de valuation de uma startup:

“Sua startup vale aquilo que você e o investidor concordam que ela vale”

Conforme sua startup avança em termos de criação de produtos e serviços (mesmo que ainda em fase de protótipos), aumento do número de usuários, reconhecimento da marca e outras conquistas, seu risco diminui. Essa redução no risco permite uma valorização da empresa à medida em que os resultados passam a ser mais tangíveis.

Quem investe em uma startup?

Quando uma startup está em seu estágio embrionário, ou seja, é pouco mais do que uma ideia, o capital de seus fundadores é, possivelmente, tudo com o que ela pode contar. Com o passar do tempo e, conforme algumas etapas são concluídas, o negócio passa a atrair novos tipos de investidores.

O quadro abaixo ilustra essa evolução:

Estágio da startupInvestidorTipo de investimento
Apenas uma ideiaFundadoresFinanças pessoais
Produto ou protótipo desenvolvidoFamília e amigosEmpréstimo ou doações
Conta com alguns clientesInvestidor anjo[1]Título conversível[2]
Tração (base de clientes fiéis)Investidor anjoParticipação acionária
Ganho inicial de escalaVenture capital[3]Participação acionária
Crescimento rápidoVenture capitalParticipação acionária

Adaptado de Poland, 2017, p. 14

Conforme o quadro acima, os recursos captados podem ser enquadrados em quatro categorias, o dinheiro de seus fundadores, empréstimos de familiares a amigos, títulos conversíveis e participação acionária.

Com relação aos empréstimos de familiares e amigos, resista à tentação de oferecer participação acionária nesse estágio de captação. Em primeiro lugar, ceder participação acionária em uma etapa tão preliminar carece de qualquer fundamentação econômica e você corre o risco de ser questionado por futuros investidores quanto ao valor da participação desse “benfeitor”. Por exemplo, se um parente ou amigo empresta R$ 10.000 e, após 1 ano você, ao invés de pagar pelo empréstimo, oferece 10% de participação, de maneira intencional ou não, o valor de sua empresa fica estabelecido em R$ 100.000.  Isso costuma gerar problemas em estágios posteriores de negociação.

Pre-money e Post-money Valuation

Os conceitos de Pre e Post-money Valuation são extremamente importantes quando falamos de investimentos em startups e referem-se aos valores definidos antes e depois de uma negociação ou rodada de investimento.

Pre-money Valuation é o valor da empresa antes da rodada de investimentos. Digamos que esse valor tenha sido atribuído por seus fundadores, no seu estágio inicial, em R$ 200.000. Os fundadores negociam um aporte de R$ 50.000 por parte de um investidor anjo.

O quadro abaixo mostra como fica a valorização e a participação acionária após a negociação:

Antes da rodada de investimentos
AcionistasValor da startupParticipação acionáriaPre-money Valuation
FundadoresR$ 200.000100%R$ 200.000
Após a rodada de investimentos de R$ 50.000
AcionistasValor da startupParticipação acionáriaPost-money Valuation
FundadoresR$ 250.00080%R$ 250.000
Investidor anjo20%

Após a rodada de investimentos mostrada acima, os investidores cederam 20% de participação acionária em troca de R$ 50.000 e a empresa passou a valer R$ 250.000.

Negociando com investidores

Aqui vale muito a expressão: “Você sabe com quem está falando?”, mas não no sentido de abuso de autoridade que vemos por aí e sim no sentido de saber quais são os interesses e fatores motivacionais que levam alguém a investir em um negócio. Fundos de investimentos e empresas de Venture Capital ou Private Equity possuem estatutos e regras próprias que, de alguma maneira, impõe certas condições de negociação. Não tenha dúvida de que você e sua startup ainda emergente são a parte mais fraca nessa negociação. Isso não significa que você deve abrir mão daquilo que acredita, mas que deve estar preparado para ser flexível e avaliar que o investimento que você busca pode ser fundamental para as próximas etapas e o crescimento da empresa.

Existem alguns fatores que tem muita influência em qualquer rodada de investimentos. Esses fatores transmitem credibilidade àqueles que pensam em aportar recursos em uma startup. Vejamos alguns deles:

  • Fundadores e equipe: quais as competências das pessoas que pensam a estratégia e conduzem as operações?
  • Tamanho e tendências do mercado: o mercado alvo é grande o suficiente para gerar os retornos esperados? Já existem empresas que dominam esse mercado? Há tendência de crescimento ou retração?
  • Projeção de vendas: quais as vendas estimadas para os próximos anos? Essa projeção está de acordo com o tamanho do mercado?
  • Diferenciais: quais os diferenciais que sua startup possui e que a farão obter vantagem competitiva?
  • Barreiras de entrada: como a solução proposta em termos de produtos e serviços estará protegida de cópias e da competição em geral? Ganhos de escala, patentes, tecnologia e propriedade intelectual?
  • Base de usuários: seu negócio já possui uma base sólida de clientes?

O processo de valuation de uma startup não se esgota com os itens abordados neste artigo, ao contrário, novas metodologias e abordagens mercadológicas evoluem em conjunto com o surgimento de novos negócios e novas tendências.

Gostou desse artigo? Deixe seus comentários e suas sugestões.

REFERÊNCIAS:

RIES, E. A startup enxuta: como os empreendedores atuais utilizam a inovação contínua para criar empresas extremamente bem-sucedidas. Rio de Janeiro: Leya, 2012.

POLAND, S.R. Startup valuation. Asheville, NC: 1×1 Media, 2017

SANTOS, José Otávio dos. Valuation: um guia prático – 2ªed. São Paulo: Saraiva Educação, 2019


[1] Investidor anjo é uma pessoa física ou grupo de pessoas que busca investir seu capital próprio em startups que julgam ter potencial de valorização.

[2] Também denominada de convertible note, é um tipo de empréstimo que pode ser convertido em ações de uma empresa

[3] Venture capital são empresas ou fundos de investimentos que aportam dinheiro em empresas com alto potencial de crescimento.

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